Deus é padrasto
Uma a/teologia inspirada em dois romances recentes
Aviso aos navegantes: Deus nem sempre é Deus. Quando Nietzsche diz que Deus está morto ele fala de Deus, mas não de Deus. Quando Heidegger diz que ao Deus dos filósofos não se pode rezar nem sacrificar, ele não está falando de Deus. Um é o Deus cristão, pessoal, pai de Jesus, criador dos céus etc etc etc. Outro é o Deus enquanto uma possibilidade lógica que sustenta não apenas a ordem natural mas também a moralidade que é diretamente implicada dessa ordem — claro, do ponto de vista dos próprios moralistas. É bem verdade que esses dois se confundem a todo tempo: o Deus cristão é colocado como o Deus da moral (vide a bancada que o representa) e o Deus lógico é colocado como o mesmo da bíblia, ainda que eles tenham bem pouca semelhança um com o outro. O propósito a/teológico aqui, apoiando um pé em Mark C. Taylor e outro em Saramago, é pensar Deus como padrasto, em clara ofensa e provocação à tradição que chama Deus de pai. A questão é que Deus é outro. Para citar uma grande: não tomo o nome de Deus em vão. Diz Adélia Prado “tomo o nome de Deus num vão”.
[depois deste breve alívio cômico, o texto fica um pouco mais pesado. prossiga com cautela]
Tatiana Salem Levy, em seu último livro publicado, fala sobre seu padrasto. Acabo de me dar conta de que desautorizo melhor não contar, justamente, contando seu enredo. Salem Levy torna públicas, apesar de muitas indicações negativas de pessoas próximas, as diversas investidas que seu padrasto faz sobre ela, bêbado, sóbrio, em momentos delicados, quando estavam sozinhos, quando estavam acompanhados. Investida é um modo delicado de falar de assédio. Ele, após um tempo disso, confessou estar apaixonado por ela. Disse que tratava disso na terapia. Repetiu as cenas de assédio.
Eu só queria, como quis outras vezes na vida, que o tempo voltasse, que aquele homem saísse pela porta e não tivesse chegado nem se jogado nos meus braços, fazendo com que aqueles minutos se repetissem ao longo da minha vida nas formas mais variadas, como imagem, segredo, pesadelo, silêncio, repetição, fantasma, culpa (Melhor não contar, cap. 41).
O início do livro fala de um episódio que, à luz desse relato acima, indica o nível de perversidade de seu padrasto, o cineasta Nelson Pereira dos Santos. Aos 10 anos, a autora tirou a parte de cima de seu biquini enquanto estava na piscina sozinha. Do lado de fora, observavam sua mãe e o padrasto. Em algumas cenas depois, ele lhe entrega um desenho que havia feito daquele momento: ela, com os mamilos desenhados. “Há mais tinta neles, foram desenhados com força. Estão eretos, reparo”.
A portuguesa Madalena Sá Fernandes, uma de minhas leituras mais recentes, publicou Leme este ano no Brasil — outro livro que também coloca o padrasto no centro da narrativa. Nesse livro, entretanto, a violência não é sexual, ainda que seja uma violência baseada na diferença entre os sexos dele e o que compartilha com sua mãe. Paulo, seu padrasto, é uma figura de fortes opiniões, também um gênio artístico, e portador de uma violência verbal, psicológica e física que parece ser típica do tipo. Contrasta com um dos poucos capítulos em que Sá Fernandes fala do pai, um dos mais emocionantes e bonitos do livros — um respiro no meio da tensão. O padrasto, aqui, impõe ordens sem sentido, como a proibição de crianças visitarem a sala de estar, instaura o medo e o silêncio, sob risco de o jantar ser interrompido no meio, e arremessa quarto a dentro quaisquer objetos que estivessem fora do lugar, sem se preocupar com a integridade da menina ou do objeto.
No seu funeral, a ex-mulher dele, a última, abraçou a minha mãe, a penúltima. As duas choravam muito. Ela disse-lhe ao ouvido: “Era um filho da puta” (Leme, cap. 1).
É particularmente expressivo o fato de que há certa ambiguidade em uma cena tão direta: não é possível saber quem disse a quem o que foi dito. Pode-se presumir por uma ou por outra, mas não diria que é possível bater o martelo (a não ser que você seja uma das três pessoas ali envolvidas). O mais notável, todavia, é que tanto faz. O padrasto, ou ex-marido, era um filho da puta. Para as duas. Para as três, na verdade. Para mais gente, descobrimos ao longo do livro. O fato de o padrasto estar marcado, nesse início tão forte, como um filho da puta é a base para tudo que se lê em seguida.
Deus é um filho da puta. Deus é um abusador. Deus é violento — psicologicamente, verbalmente, fisicamente. Enquanto Deus não morrer, o mundo se sustenta do modo como é. Porque Deus sustenta essa ordem patriarcal e misógina. É Deus, enquanto fundamento último da moralidade e da valoração niilista, que nos rouba a vida para entregar ilusão, que sustenta a violação da dignidade humana. É Ele que faz com que a sociedade feche os olhos para a adultização e se escandalize com pessoas obesas. A moralidade social, que sustenta crimes humanitários como o que ocorre agora (e nem é preciso nomear o lugar para que saibamos de onde, se baseia na Verdade que Deus representa. Esse Deus é padrasto — não o que cuida, acolhe e ama, como alguns que tenho a sorte de conhecer. Esse Deus é o padrasto filho da puta, que desrespeita mulheres e crianças, que coloca um olho roxo no rosto de uma mãe chorosa, que assedia sua enteada depois que sua companheira ficou cega. Enquanto o nome de Deus sustentar a violência do mundo, continuarão existindo aqueles que querem seu assassinato — entre os quais eu assino.




Que pedrada esse texto... 😵 obrigado por ele...