O oásis que nunca existiu
Miragem e areia movediça surfando na onda da nostalgia
Parece que algumas imagens às quais fomos submetidos durante a infância teceram, de fato, um imaginário que nos preparou para situações que, muito provavelmente, nunca enfrentaremos na vida. Desculpe-me se começo pelo meio do caminho, mas há que se começar por algum ponto, e por que não pelo meio? Parece que os desenhos animados nos avisaram para termos atenção a qualquer grupo de solo arenoso meio indefinido: poderia ser areia movediça. Aquela em que quanto mais nos mexemos, mais nos afundamos. Curioso pensar que nunca nem vi notícias sobre isso em nossas terras livres de furacão e grandes terremotos. Ficam na memória apenas os filmes de aventura e as comédias animadas que traziam a ideia, à época mágica, de uma armadilha quase inescapável.
Uma outra imagem que sempre me despertou mais interesse e fascínio do que a da areia movediça é a de miragem. Essa, também povoada por desenhos e filmes, se construía principalmente como um oásis no deserto. Depois de tempos andando e desfalecendo no calor, o Pica-pau finalmente encontrava o paraíso: um lago com árvores em cuja sombra ele poderia descansar. Sombra-e-água-fresca — miragem. Ainda penso no meu curioso fascínio e elaboro como hipótese a formalidade da imagem. Diferentemente da areia movediça, a miragem não é uma coisa específica, mas uma forma falsa. Em outras palavras, a miragem pode ser qualquer coisa de que se precisa. Para o Pica-pau, um lago no deserto. Para Caetano Veloso, cantando a trilha de Tieta do Agreste, a miragem é uma mulher que sorri para ele e depois some no bloco de carnaval. Para Nietzsche navegando o oceano infinito da morte de Deus, “e não há coisa mais terrível do que a infinitude”, a miragem deveria ser uma nova ilha.
O oásis era só uma miragem e o Pica-pau mergulhou na areia. A falsidade da miragem, e a aspereza da realidade, se revelam impassíveis, fisicamente totais e inescapáveis: não há lago, não há sorriso, não há ilha. Miragem. Na primeira vez em que estive em um lugar espanablante, logo aprendi a entrar em lojas e falar “estoy solo mirando” para poder passar menos vergonha no auge dos meus 15 anos. A minha miragem era olhar roupas e outros produtos que estavam bastante acima do meu orçamento — o qual me permitiu comprar um excelente fone de ouvido para seguir com minha carreira de DJ. Outros tempos. À época, talvez fosse uma miragem, um olhar para fora da chatisse que era, para mim, a disciplina escolar. Mal sabia eu.
Pica-pau estava no deserto. Uma imagem bastante parecida, mas às avessas, com a de Nietzsche. Tanto o deserto quanto o oceano representam a perda de referências. Claro, há as estrelas, os ventos etc., mas também não há muita coisa para além disso. E é nessas situações que a miragem me parece ainda mais necessária: ela se revela como ponto de apoio, solução, resolução, chegada. Nesse ponto, sua falsidade é o que menos me interessa. Miragem é, sobretudo, esperança. Pica-pau não anda até o oásis: quando o avista de longe, com o olhar já turvo e desfigurado, ele reúne suas escassas forças e corre até o lago que nunca chega. Se antes ele mal podia andar, agora ele corre, se lança, pula na miragem que se apresenta.
Neste ponto, deve estar claro para os leitores e as leitoras o que se apresenta existencialmente. O que me parece fundamental é o fato que está para além da certa falsidade da miragem, isto é, o grau de incerteza que se apresenta na direção para onde se corre a partir da miragem. Todo deserto tem seu fim. Caminhar em direção à miragem pode te levar para o interior mais interior do deserto, mas também pode te levar ao seu extremo, seu fim. Diante da falta de referências, não é possível saber para onde a miragem te chama, se para o fundo sem fundo do problema ou se para o caminho da solução. Nesse indecisão profunda reside o apelo da miragem — o qual só é possível resistir se o medo for maior do que a vontade de sair. A miragem talvez não dê sentido ao deserto, mas chama a caminhar, ainda que não se possa ter certeza se para dentro ou para fora dele.
Hoje, eu vi uma miragem. É incerto se ela vai me levar mais a fundo no deserto ou se ela vai me tirar dele. Contudo, decidi segui-la imaginando o oásis.




Me lembrei da banda Pense que cita Eduardo Galeano "“A utopia está lá no horizonte.
Se me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos.Por mais que eu caminhe, jamais alcançá-lo-ei. Para que serve a utopia Serve para isso: para eu não deixar de caminhar.”